quarta-feira, 8 de junho de 2011

As funções desempenhadas pela ilustração infantil



"Simplisticamente, atribuímos à ilustração a função de ornar ou embelezar o texto, ignorando todas as outras funções que ela pode assumir, tais como: as de elucidar, ajudar a compreender o texto que a acompanha, ou mesmo a de representar, descrever, narrar ou, simplesmente, ter uma função simbólica, expressiva ou lúdica. Estas últimas, e acrescentando também a função estética, podem funcionar como um mecanismo potenciador de construção de novas narrativas, atribuindo uma terceira leitura à história, conduzindo a processos interpretativos, reforçando a capacidade de significação, e ajudando a criança, no caso da literatura de potencial recepção infantil, a fazer a chamada leitura criadora.

Neste seguimento, sabendo que, a imagem, no livro ilustrado e enquanto parte dele, não desempenha unicamente uma função, então, a ilustração pode também ― brincar, persuadir, enfatizar, pontuar e servir como devaneio à leitura criativa. A ilustração pode ser também um auxiliar na aprendizagem do processo de ler, na medida em que, como foi referido, reforça a capacidade de significação e de associação.

As ilustrações, nos livros ilustrados, comunicam tantas coisas às crianças que acabam por ser muito mais do que simples dese-nhos ao serviço da palavra e, por vezes, são elas as verdadeiras portadoras de todo o significado. A leitura criadora, a que nos referimos atrás, não é mais do que a interpretação própria, única e individual que cada leitor faz do binómio texto/ilustração e da sua combinação, que nunca será igual de receptor para receptor. Sendo assim, e além de ajudar a promover uma leitura criativa e criadora, a ilustração é também potenciadora do imaginário infantil, induzindo ao desenvolvimento da atitude criativa e à capacidade criativa no sentido em que desenvolve capacidades de criação/imaginação de diferentes mundos, contextos, situações ou personagens.

É importante salientar que, neste contexto, estamos a reflectir acerca da ilustração em livros onde exista imagem e texto, portanto, ilustrados, e não de livros pictóricos, constituídos unicamente por imagens. Por conseguinte, a ilustração acompanha o texto havendo uma relação de dependência e interacção entre imagem e palavra tornando-se os dois responsáveis pela narrativa". (pp. 22-23)

 
Fonte: Um Livro Vivo {transposição para a web do livro para crianças Histórias de pretos e de brancos}, dissertação de Mestrado em Design de Ana Miriam Duarte Reis da Silva,  apresentada à Universidade de Aveiro em 2010. Link



"As imagens que ilustram os livros infantis adquirem (…) funções diferentes conforme as idades a que são destinadas. Gabriel Janer Manila (1995) propõe agrupar as ilustrações em três níveis distintos, de acordo com a função que exercem no contexto do livro que ilustram. Estes níveis sintetizam algumas das funções que se integram nos estádios de desenvolvimento infantil propostos por Jean Piaget. 

Trata-se, num primeiro momento, de imagens capazes de sugerir a história completa, quando as crianças em causa não sabem ler. As imagens estimulam a narração oral e acompanham-na. Os livros ilustrados para as crianças de pouca idade convidam ao jogo de narrar em voz alta e as ilustrações podem constituir o elemento provocador desses relatos orais.

Posteriormente, no segundo nível, destinado às crianças “primeiras leitoras”, que se defrontam com a descodificação dos primeiros textos, a função primordial da ilustração é dirigida à motivação do leitor e ao exercício da persuasão. A ilustração centra-se, aqui, essencialmente, na captação do leitor. 

Finalmente, num terceiro momento, quando o pré-adolescente é já capaz de descodificar o texto com facilidade, a ilustração fornece informação suplementar, oferece a abundância de uma leitura paralela, alternativa e divergente, que lhe possibilita contrastá-la com a própria leitura. Através da imagem o leitor obtém informação complementar, propulsora de uma compreensão mais aprofundada e mais crítica da história.  

(…) é ainda de referir que esta se pode constituir como determinativa, uma vez que é susceptível de predispor a criança a interpretar, por exemplo, uma história de uma certa forma. (p. 28-29)


A arte de contar histórias com palavras e imagens: o Capuchinho Vermelho / Maria Goreti Torres; pref. de Marta Martins. Braga: APPACDM, 2003.

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